GT BRICS Informe 6 – 03/07/25

Por : GT BRICS/ ABED-DF
A ausência de Xi Jinping e Vladimir Putin na Cúpula dos BRICS marcada para este segundo semestre no Brasil é mais do que um contratempo logístico: é um revés diplomático de grande escala — especialmente para o governo Lula, que apostava alto nesse encontro como marco do protagonismo brasileiro no cenário internacional.
Ao que tudo indica, a China será representada pelo primeiro-ministro Li Qiang, figura importante, mas sem o peso simbólico de Xi. Já Putin, como esperado, não poderá pisar em solo brasileiro: um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) impede sua presença física, e o Brasil, como signatário do TPI, teria a obrigação legal de prendê-lo. Uma situação embaraçosa demais para se correr o risco.
O resultado: dois dos cinco chefes de Estado fundadores dos BRICS estarão ausentes, justamente os que mais desafiam a ordem geopolítica tradicional liderada pelo Ocidente.
O constrangimento do anfitrião
Para Lula, essa configuração é desconfortável. Desde que reassumiu a presidência, o petista tem atuado como embaixador do Sul Global, costurando alianças entre países emergentes, defendendo reformas nas instituições multilaterais e propondo uma nova ordem mundial mais democrática. A Cúpula do BRICS em solo brasileiro era a cereja do bolo dessa diplomacia ativa.
Sem Xi nem Putin, o encontro perde parte de seu poder de fogo e brilho político. A imagem simbólica dos cinco líderes unidos contra os desequilíbrios do mundo multipolar — que seria manchete nos jornais e destaque nas fotos — desaparece.
Além disso, o Brasil vê-se no papel delicado de anfitrião de uma festa em que os convidados mais ilustres não vêm. Como contornar isso sem que pareça desinteresse ou desdém?
Nem fracasso, nem vitória
É claro que a Cúpula não será um fracasso. O bloco BRICS é maior do que seus rostos mais conhecidos. A presença de líderes como Narendra Modi (Índia), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e representantes dos países recentemente integrados — como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Egito, Indonésia e Irã — pode garantir decisões importantes, desde cooperação energética até a ampliação do Novo Banco de Desenvolvimento. A questão é se de fato comparecerão após os conflitos que estão ainda em curso no Oriente Médio.
Mas é impossível ignorar o simbolismo. Fazer uma cúpula dos BRICS sem Xi nem Putin é como inaugurar um teatro sem os dois principais atores da peça. O público assiste, os técnicos fazem sua parte, mas a história perde impacto.
E aí?
O Brasil pode e deve aproveitar a ocasião para reafirmar sua centralidade nos debates globais. Mostrar que o BRICS não é um clube de autocratas, mas uma plataforma de diálogo entre potências emergentes com visões distintas. Reforçar seu compromisso com o multilateralismo, a paz, o desenvolvimento sustentável. E, acima de tudo, deixar claro que o país continua sendo um interlocutor confiável entre diferentes mundos.
No entanto, o recado está dado: o jogo geopolítico em 2025 é duro, fluido e impiedoso. E o prestígio de uma cúpula depende cada vez mais de quem comparece, ou de quem decide não vir.

