O Brasil saindo do '''mapa da fome'' e os desafios ainda existentes
7 de agosto de 2025
imagem: ABED
texto: Eron José Maranho
Em um mundo conturbado, com a existência de inúmeras guerras, com os efeitos da pandemia da COVID-19, com eventos climáticos extremos, com a elevação dos preços de alimentos que contribuíram para levar parcela da população mundial à fome, o Brasil saiu do “Mapa da Fome”.
O “Mapa da Fome” é um indicador elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura –FAO que aponta países em que mais de 2,5% das suas populações passam por insegurança alimentar crônica. Segundo o Relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo - SOFI", na média dos anos 2022/2023/2024, o Brasil voltou a apresentar um percentual inferior a 2,5% do total da sua população que possuía risco de subnutrição ou de falta de acesso à alimentação considerada suficiente. Destaque-se que no triênio 2019/2020/2021 o Brasil havia voltado ao “Mapa da Fome”, após ter saído pela primeira vez em 2014.
Este posicionamento brasileiro o coloca em situação consideravelmente melhor em relação à média de 8,5% observada mundialmente, assim como a de 4,2% da América do Sul, onde somente o Uruguai e a Guiana se encontravam na mesma situação brasileira, ou seja, fora do patamar de desnutrição das suas populações.
Apesar do avanço, ainda continuam inúmeros os empecilhos e desafios a serem enfrentados para a resolução da problemática alimentar da população brasileira. Dentre eles, o Relatório da ONU aponta que, na média do triênio 2022/2023/2024, ainda havia no Brasil cerca de 3,4% (7,1 milhões de pessoas) do total da sua população na condição de insegurança alimentar grave, quando há escassez de alimentos para todos os indivíduos de uma família, chegando até mesmo à condição de fome. A proporção da população na condição alimentar grave é maior em outras regiões do mundo, chegando a 7,7% (33,4 milhões de pessoas) para aquelas residentes na América do Sul e 10,3% (865,5 milhões de pessoas) para a população mundial.
A situação é ainda mais complexa quando se considera que no Brasil havia outros 10,1% (21,4 milhões de pessoas) do total da sua população que se encontravam na condição de insegurança alimentar moderada, quando há restrição no acesso aos alimentos, basicamente na quantidade que é consumida, sendo que no conjunto dos países da América do Sul esta proporção chega a 17,4% (75,2 milhões de pessoas) e a 18,0% (1.451,4 milhões de pessoas) em termos mundiais.
Este elevado contingente populacional em condições de insegurança alimentar grave e moderada, em grande medida, é resultante do número de pessoas que têm sido incapazes de pagar uma dieta saudável, que se constitui no fornecimento de todos os nutrientes necessários em quantidades adequadas, de forma equilibrada, diversificada e segura do ponto de vista da contaminação. Acompanhando a tendência mundial e dos países da América do Sul, o Brasil, a partir de 2021, após os perversos efeitos da COVID-19, reduziu a proporção e o número de pessoas incapazes de pagar uma dieta saudável que, embora ainda significativamente elevados, chegou no ano de 2024 em seu menor patamar de 23,7% do total da sua população, correspondendo a 50,2 milhões de pessoas nestas condições (Tabela 1).
Ressalte-se também que entre os anos 2017 e 2024, observou-se um aumento no preço dos alimentos, como do arroz, de carnes e derivados, do café, etc. que resultou na chamada inflação dos alimentos, afetando negativamente o seu consumo. Este processo inflacionário é refletido no custo diário de uma dieta saudável por pessoa, que durante os anos de 2017 e 2024 apresentou considerável crescimento, chegando em seu limite neste último ano, tanto em termos mundiais e na América Latina quanto no Brasil. Em 2024, segundo o Relatório da FAO, no território brasileiro, o custo médio diário de uma dieta saudável por pessoa atingiu o valor de US$ 4,69 (paridade do poder de compra), correspondendo a uma média de cerca de R$ 11,84 (Tabela 2).
É neste contexto de dificuldades ainda existentes de acesso a alimentos que a retirada do Brasil do “Mapa da Fome” entre os anos de 2022/2023/2024 se vincula a inúmeros determinantes, com destaque para o crescimento da sua economia e do seu mercado de trabalho. Neste período, observou-se um significativo crescimento do Produto Interno Brasileiro – PIB brasileiro, especialmente daquele vinculado ao Consumo das Famílias, assim como de inúmeros recordes de aumento do total de pessoas ocupadas e da massa salarial e da queda da taxa de desemprego.
Agregue-se a estes determinantes as inúmeras políticas públicas adotadas, principalmente pelo governo federal, como a do Bolsa Família, do Vale Alimentação, do Programa Nacional de Alimentação Escolar, do apoio à agricultura familiar, do aumento real do salário mínimo, dentre outros que, de forma conjunta, resultaram em efeitos multiplicadores sobre o aumento da renda e do consumo da população brasileira, dentre eles o alimentar.
Apesar deste avanço no enfrentamento da questão alimentar, como se observou, ainda são inúmeros os desafios a serem enfrentados. O primeiro deles é o compromisso político para a manutenção e ampliação das políticas adotadas que possibilitaram a saída do Brasil do “Mapa da Fome”. Os demais desafios se vinculam a inúmeros problemas ainda existentes a serem enfrentados com urgência que se relacionam à retirada da população brasileira que convive com a condição de insegurança alimentar grave e moderada.
É fundamental a continuidade do crescimento da economia brasileira e do seu mercado de trabalho e da manutenção e avanço das políticas públicas adotadas, que seguramente resultam na manutenção do aumento da renda da sua população, que se constitui em fundamental ferramenta para a continuidade e aumento do consumo das famílias brasileiras, em especial de alimentos saudáveis.
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