A permanência dos juros elevados e seus efeitos na vida das pessoas, na economia e nas contas públicas
12 de junho de 2026
As recentes declarações dadas pelo presidente do Banco Central na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado não deixam dúvidas sobre como a autarquia pretende conduzir sua política de juros. Ou, dito em outras palavras, como irá conduzir a política monetária, uma vez que o Bacen, ao controlar a moeda e o câmbio, privou o governo federal de atuar nessas duas áreas tão essenciais à economia de todo país.
Outrossim, o presidente do Bacen justifica a manutenção da taxa Selic no patamar atual de 14,50% a.a. – depois de se manter em 15% a.a., de junho/2025 a abril/2026, a maior em 20 anos – em razão da persistência da inflação de oferta, segundo ele determinada por quatro choques externos ocorridos nos últimos anos, a saber: pandemia, guerra da Ucrânia, tarifaço e guerra do Irã, como se o aumento das taxas de juros pelo Banco Central do Brasil blindasse a economia brasileira dos choques externos, bem como de uma inflação de custos. O aumento da taxa de juros poderia provocar uma valorização do real com vistas a compensar o choque externo, mas isso atrairia capital especulativo que pode sair a qualquer momento, fragilizando nossas contas externas. Também não deixou de “lembrar” que a economia brasileira está muito aquecida, em grande parte pelo fato do país apresentar as menores taxas de desemprego desde 2012.
Em outras palavras, para o presidente do Bacen, Gabriel Galípolo, quando a taxa Selic não é afetada por fatores externos, são os fatores internos – que teimam em não obedecer as previsões do mercado, pois a economia está em alta e a taxa de desemprego em baixa – que justificam sua manutenção em patamar tão elevado. Faltou incluir entre as determinantes da atual taxa Selic a influência que o Bacen sofre do mercado financeiro rentista, em particular dos setores que lucram muito com a mesma.
Não se ouviu de Gabriel Galípolo nenhuma observação sobre a política monetária do Bacen, que é independente dos outros poderes da República para exercer controle do processo inflacionário, de centrar sua atuação no cumprimento dessa função, apenas em elevar em termos reais a taxa de juros para combater a elevação de preços na economia, tendo como pressuposto que a demanda está aquecida. Não considera que uma taxa de juros real muito elevada, além de inibir o crédito aos consumidores, é um desestímulo para que os setores não financeiros da economia façam investimentos para ampliar sua capacidade produtiva, e modernizar-se, aumentando sua produtividade, dirigindo parcelas significativas de seus lucros para o mercado financeiro, extremamente atrativo. Em segundo lugar, as taxas nesse nível elevado são um fator de geração de inflação, pois as empresas pertencentes a todas as cadeias produtivas de bens duráveis, não duráveis e serviços têm seus custos de produção elevados pela necessidade de captarem capital de giro a taxas de juros extremamente elevadas, e veem-se obrigadas a transferir este custo de captação financeira para os preços de seus produtos.
Os números recentes da economia brasileira reforçam essa preocupação. Em 2025, a taxa Selic atingiu 15% ao ano, o maior patamar desde 2006, permanecendo em níveis extremamente elevados também em 2026. Mesmo após reduções pontuais, a taxa básica de juros encontra-se em torno de 14,5% ao ano, enquanto a inflação projetada permanece significativamente abaixo desse percentual, resultando em uma das maiores taxas de juros reais do mundo, de cerca de 10% ao ano. Nesse contexto, aplicações financeiras de baixo risco oferecem retornos extremamente elevados, estimulando o rentismo e reduzindo o incentivo à realização de investimentos produtivos de longo prazo. Além disso, o elevado custo do capital encarece financiamentos, empréstimos e operações de capital de giro, afetando diretamente a estrutura de custos das empresas e comprometendo a expansão da capacidade produtiva nacional.
Cabe acrescentar que o presidente do Bacen pediu que os parlamentares concedam uma maior autonomia à autarquia, em especial que aprovem a PEC 65/2023, o que viria garantir-lhe mais recursos, sem considerar os efeitos deletérios sobre as combalidas contas públicas, sangradas mensalmente para rolar uma dívida que só faz crescer, uma vez que a taxa de remuneração é muito superior às taxas de crescimento da economia.
Mas esta Nota Técnica, também tem por finalidade expor os outros efeitos causados pela manutenção da taxa Selic em 14,50% (não será surpresa que retorne ao patamar de 15%), tratados pelo presidente Galípolo como “medidas que deveriam ser evitadas”.
A primeira consequência desse modelo é o crescente endividamento das famílias brasileiras. Embora não se possa desconsiderar a existência de comportamentos de consumo desregrados em determinados segmentos da população, incluindo os elevados gastos com plataformas de apostas esportivas e jogos on-line, que já movimentam dezenas de bilhões de reais por ano, a principal causa estrutural do endividamento encontra-se no elevado custo do crédito no Brasil. Para grande parte da população, o financiamento tornou-se a alternativa mais acessível para a aquisição de bens e serviços essenciais, em um contexto marcado pela perda do poder de compra da renda (por conta da carestia) e pela insuficiência da poupança das famílias.
Os dados recentes confirmam a gravidade desse cenário. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), cerca de 80% das famílias brasileiras encontram-se endividadas, o maior percentual da série histórica iniciada em 2010. Além disso, aproximadamente 30% das famílias possuem dívidas em atraso, enquanto uma parcela significativa compromete mais da metade de sua renda com o pagamento de obrigações financeiras. A situação torna-se ainda mais preocupante quando se observam as taxas de juros praticadas pelo sistema financeiro. Os juros médios do crédito rotativo do cartão de crédito permanecem acima de 445% ao ano, podendo superar 450% em determinados períodos, enquanto modalidades como cheque especial e crédito pessoal também apresentam taxas extremamente elevadas. Nessas condições, dívidas inicialmente pequenas transformam-se rapidamente em passivos difíceis de serem quitados, alimentando um ciclo permanente de inadimplência e exclusão financeira.
Para além das dívidas das famílias, há um outro efeito tão devastador quanto o anterior, causado pela manutenção dos níveis atuais da Selic, que se materializa no desestímulo às atividades produtivas. Quase nenhuma atividade lícita, por mais eficiente que seja a gestão do negócio, dará uma taxa de retorno em torno de 15% ao ano, o que pode ser obtido facilmente pela compra de títulos do Tesouro, uma operação sem risco, garantida pelo Estado brasileiro. Apesar desse disparate financeiro, a economia real resiste às tentativas especulativas, pois ninguém come e bebe títulos do tesouro, veste CDI, ou se locomove com debêntures. Essa teimosa forma de resistência é encarada pelo Banco Central como “aquecimento perigoso”, que exige ainda mais cautela, vale dizer, a Selic não pode ser reduzida, sob pena de causar um descontrole e os descumprimento das metas de inflação, mesmo com os resultados do varejo, no primeiro trimestre de 2026, não mostrando forte aquecimento. Mas o importante é o cumprimento das metas. A economia, essa é apenas um detalhe.
Ainda é preciso analisar o efeito destrutivo que uma taxa que gira em torno de 15% ao ano, provoca nas contas públicas. O dispêndio dirigido ao pagamento da dívida crescente não apenas impede o governo de investir em infraestrutura, tão necessária ao desenvolvimento nacional, como reduz sua capacidade de manter e, principalmente, ampliar programas sociais fundamentais para compensar a baixa remuneração paga à maior parcela da população, como Programa Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), Programa Pé-de-Meia, Auxílio Gás, Minha Casa, Minha Vida (MCMV), Tarifa Social de Energia Elétrica.
Se forem incluídas as despesas com a Seguridade Social – Previdência, Assistência Social e Saúde, particularmente o SUS - , o conjunto dessas ações representam 21% do PIB. Por sua vez, a rolagem da dívida pública, sangra anualmente algo em torno de R$ 1 trilhão dos cofres públicos, representando cerca de 8% do PIB.
A título de exercício, a redução da Selic do atual patamar próximo de 14,5% para 10% ao ano produziria efeitos relevantes tanto sobre as contas públicas quanto sobre famílias e empresas. Δi=14,5%−10%=4,5 pontos percentuais. A dívida bruta do governo brasileiro encontra-se em torno de R$ 9 trilhões. Nem toda a dívida é imediatamente afetada pela Selic, mas uma parcela significativa possui remuneração atrelada à taxa básica. Supondo, de forma simplificada, que R$ 5 trilhões da dívida sejam sensíveis à Selic, uma redução de 4,5 pontos percentuais representaria uma economia anual potencial de aproximadamente R$ 225 bilhões por ano. (5 trilhões × 4,5%). Esse valor é superior ao orçamento anual de diversos ministérios e equivale a múltiplas vezes os investimentos federais em infraestrutura. Considerando uma família com uma dívida bancária de R$ 50 mil, com uma taxa de juros de 14,5% ao ano, o custo financeiro dessa dívida seria de aproximadamente R$ 7.250 anuais. Caso a taxa fosse reduzida para 10% ao ano, os juros cairiam para cerca de R$ 5.000 anuais, gerando uma economia de R$ 2.250 por ano para essa única família, aliviando o estrangulamento financeiro. Embora o valor pareça modesto quando analisado isoladamente, ele corresponde a cerca de 1,4 salários mínimos, recursos que poderiam ser destinados ao consumo, à educação dos filhos, à melhoria da habitação ou à formação de poupança. Em escala nacional, considerando os milhões de famílias brasileiras endividadas, a redução dos juros representaria a liberação de bilhões de reais para a economia real, fortalecendo o comércio, os serviços e a atividade produtiva, em vez de enriquecer meia dúzia de Vorcaros, esterilizando parcela crescente da renda familiar para o pagamento de encargos financeiros. Quando esse efeito é projetado para os milhões de contratos de crédito imobiliário, crédito consignado, financiamento de veículos e empréstimos pessoais existentes no país, o impacto agregado torna-se muito expressivo. A redução dos encargos financeiros liberaria bilhões de reais às famílias, ampliando sua capacidade de consumo, poupança e investimento. Recursos que hoje são absorvidos pelo pagamento de juros poderiam ser direcionados para a aquisição de bens e serviços, estimulando a expansão da atividade econômica, fortalecendo o mercado interno e contribuindo para a geração de emprego e renda, impulsionando a demanda agregada e a atividade econômica. Como consequência, o Produto Interno Bruto tenderia a crescer em ritmo mais acelerado, acompanhado por maiores níveis de emprego, arrecadação tributária e investimento. A propósito, o PIB referente ao primeiro trimestre de 2026, apesar da taxa Selic em níveis inaceitáveis, cresceu 1%.
Os gastos correntes e em investimentos do Governo geram um efeito multiplicador nas receitas públicas no curto e médio prazo. Ao contrário, os pagamentos de juros sobre a dívida pública, cujos ganhos especulativos, em grande parte, são reaplicados na aquisição de novos títulos do governo, apenas provocam uma retroalimentação dessa mesma dívida, com baixíssimo, ou nulo, estímulo ao desenvolvimento econômico social do País, e um estímulo ao processo já caracterizado como estrutural na sociedade brasileira, qual seja, o crescimento contínuo de concentração de renda.
Grupo de Análise dos Impactos da Crise
Associação Brasileira de Economistas pela Democracia – ABED
Equipe Técnica: Ademir Figueiredo, Adhemar Mineiro (Coordenação), Antônio Rosevaldo Ferreira da Silva, Eron José Maranho, Jaderson Goulart Junior, José Moraes Neto e Juarez Varallo Pont.
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