Mulheres no poder: a revolução silenciosa do século XXI
16 de junho de 2026
imagem: ABED
Por: Maria Luiza Falcão Silva
Durante a maior parte da história humana, o poder teve rosto masculino. Reis, imperadores, generais, presidentes, banqueiros, juízes e empresários formavam uma galeria quase exclusivamente composta por homens. As mulheres participavam da produção da riqueza, sustentavam famílias, educavam gerações inteiras e contribuíam decisivamente para o desenvolvimento das sociedades, mas permaneciam afastadas dos espaços onde se tomavam as decisões mais importantes.
Não se tratava de uma ausência natural, mas de uma exclusão histórica. Durante séculos, o acesso feminino à educação, à propriedade, à participação política e aos cargos públicos foi restringido por leis, costumes e estruturas sociais profundamente patriarcais.
Foi somente ao longo do século XX que esse quadro começou a mudar de forma mais consistente. O direito ao voto, o acesso às universidades, a entrada massiva no mercado de trabalho e as lutas feministas abriram caminhos antes inimagináveis.
As primeiras mulheres que chegaram ao topo do poder político eram vistas quase como exceções históricas. Indira Gandhi governou a Índia quando poucas mulheres ocupavam cargos de liderança em qualquer parte do mundo. Golda Meir tornou-se primeira-ministra de Israel em uma época em que a própria presença feminina nos parlamentos ainda era reduzida. Margaret Thatcher alcançou o comando do Reino Unido e se transformou em uma das figuras mais influentes da política mundial do final do século XX.
Essas pioneiras abriram caminhos para gerações futuras. O que estamos assistindo hoje é algo diferente: as mulheres já não constituem exceções isoladas. Elas passaram a integrar de forma permanente os espaços de decisão.
O século XXI testemunha, assim, uma transformação histórica sem precedentes. Mulheres ocupam posições de comando em governos, organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento, universidades, tribunais e grandes corporações em praticamente todos os continentes.
Estamos diante de uma das mais importantes revoluções silenciosas do nosso tempo.
Muito além da representatividade
O avanço das mulheres nos espaços de poder costuma ser apresentado como uma simples questão de representatividade. Embora isso seja importante, o fenômeno é mais profundo.
A presença feminina amplia a diversidade de experiências e perspectivas nos processos decisórios. Mulheres que chegam aos cargos de liderança carregam trajetórias marcadas por obstáculos que seus colegas masculinos raramente enfrentaram. Ao longo de suas vidas, precisaram superar preconceitos, romper barreiras invisíveis e provar sua competência inúmeras vezes.
Essa experiência frequentemente influencia a forma como exercem a liderança.
Diversos estudos apontam que mulheres em posições de comando tendem a valorizar mais a construção de consensos, a negociação e a cooperação institucional. Também costumam dedicar maior atenção a temas relacionados à saúde, educação, proteção social e igualdade de oportunidades.
Naturalmente, não existe uma forma exclusivamente feminina de governar. Mulheres não constituem um grupo homogêneo. Há mulheres progressistas e conservadoras, democratas e autoritárias, nacionalistas e globalistas. O gênero não elimina as diferenças ideológicas nem determina automaticamente virtudes políticas.
Ainda assim, a ampliação da participação feminina transforma a natureza das instituições e aproxima os espaços de decisão da composição real da sociedade.
As mulheres que romperam o teto de vidro
Poucas trajetórias simbolizam melhor essa transformação do que a da ex-presidente Dilma Rousseff. Ainda jovem, Dilma enfrentou a repressão da ditadura militar brasileira. Foi presa, torturada e submetida à violência do regime autoritário. Décadas depois, tornou-se a primeira mulher eleita presidente da República no Brasil, rompendo uma barreira que parecia intransponível.
Sua trajetória não terminou com a Presidência. Sofreu um impeachment, de certa forma relacionado ao fato de ser mulher. Atualmente, ocupa a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco do BRICS, instituição criada para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento nos países emergentes.
Há um simbolismo poderoso nesse percurso. Uma mulher que passou pelos cárceres da ditadura tornou-se chefe de Estado e, posteriormente, dirigente de uma das mais importantes instituições financeiras do Sul Global.
Na Europa, Angela Merkel permaneceu dezesseis anos à frente da Alemanha e se tornou uma das líderes mais influentes do século XXI. Sem recorrer ao personalismo ou ao espetáculo midiático, construiu sua autoridade por meio da competência técnica e da capacidade de negociação.
Na Oceania, Jacinda Ardern demonstrou durante a pandemia e após os atentados de Christchurch que firmeza e empatia podem caminhar juntas.
Na América Latina, Claudia Sheinbaum tornou-se a primeira mulher eleita presidente do México, rompendo uma tradição secular de liderança masculina em um dos maiores países do continente.
Na Ásia, a ascensão de Sanae Takaichi ao cargo de primeira-ministra do Japão representa um dos acontecimentos políticos mais significativos dos últimos anos. Primeira mulher a governar o país, Takaichi construiu sua carreira em um dos ambientes políticos mais masculinos do mundo. Admiradora declarada de Margaret Thatcher, defende posições conservadoras, nacionalistas e de fortalecimento da capacidade de defesa japonesa. Sua trajetória demonstra que a crescente presença feminina nos espaços de poder não está vinculada a uma única corrente ideológica. Mulheres hoje lideram governos de esquerda, de centro e de direita, participando plenamente das grandes disputas políticas do século XXI.
O peso de ser mulher no poder
Paradoxalmente, a ascensão feminina aos espaços de comando tornou mais visíveis as desigualdades que persistem.
Mulheres líderes continuam sendo julgadas por critérios diferentes daqueles aplicados aos homens. Sua aparência física, idade, forma de vestir, vida familiar e até tom de voz frequentemente se tornam objeto de debate público.
Espera-se que sejam fortes, mas não agressivas. Firmes, mas não autoritárias. Sensíveis, mas não emocionais. Ambiciosas, mas não excessivamente competitivas.
Homens raramente enfrentam um conjunto tão contraditório de exigências.
O paradoxo do século XXI
O avanço feminino ocorre justamente em um momento de forte reação conservadora em várias partes do mundo.
Enquanto mulheres conquistam posições inéditas de liderança, movimentos ultraconservadores questionam direitos já conquistados, combatem políticas de igualdade de gênero e tentam restaurar concepções tradicionais sobre o papel feminino na sociedade. Essa contradição revela que os avanços obtidos não são irreversíveis.
A história mostra que direitos precisam ser continuamente defendidos para que não sejam perdidos.
Uma revolução ainda inacabada
Durante séculos, as poucas mulheres que exerciam poder chegavam a ele por herança dinástica. Eram rainhas e imperatrizes que ocupavam posições excepcionais dentro de estruturas profundamente patriarcais.
Hoje, a maioria das mulheres que alcança posições de liderança chega a esses espaços por meio da educação, da carreira profissional, da militância política ou da disputa eleitoral.
Essa é talvez a grande revolução silenciosa de nosso tempo.
A questão já não é saber se as mulheres são capazes de governar. Os fatos responderam definitivamente a essa pergunta. O desafio agora é construir sociedades onde homens e mulheres possam disputar o poder em condições efetivamente iguais.
A conquista mais importante não está apenas no número crescente de mulheres ocupando cargos de liderança. Está no fato de que elas passaram a participar plenamente das grandes disputas sobre os rumos do mundo, defendendo projetos distintos, ideias diferentes e visões muitas vezes conflitantes sobre o futuro.
A participação das mulheres nos espaços de poder não é apenas uma questão de justiça social ou de reconhecimento de direitos. É, acima de tudo, uma questão de qualidade democrática. Nenhuma democracia pode ser considerada plena quando metade da população permanece sub-representada nos lugares onde se tomam as decisões que afetam a vida de todos. Quanto maior a diversidade de vozes, experiências e perspectivas presentes nas instituições, mais legítimas, representativas e democráticas elas se tornam.
A ascensão das mulheres ao poder não significa o fim das disputas ideológicas nem a garantia de governos melhores. Significa algo igualmente importante: a ampliação da própria democracia. Afinal, uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela em que algumas mulheres conseguem chegar ao topo apesar dos obstáculos, mas aquela em que homens e mulheres disputam os destinos de suas nações em condições efetivamente iguais. A democracia do século XXI será cada vez mais feminina, plural e inclusiva — ou permanecerá incompleta.
Este texto exprime a visão do(a) autor(a) e não representa a opinião da Abed
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