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Quinze anos depois, legado da eleição de Graziano volta ao centro do debate sobre a fome

30 de junho de 2026

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imagem: Tânia Rêgo / Agência Brasil

texto:Edward Magro

   A diferença final foi de quatro votos. Em Roma, no dia 26 de junho de 2011, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura encerrou uma disputa apertada para escolher seu novo diretor-geral. José Graziano da Silva recebeu 92 votos. Miguel Ángel Moratinos, 88. O resultado, anunciado na Conferência da FAO, definiu mais do que um nome. Indicou um deslocamento gradual na forma como o sistema multilateral passaria a tratar a fome nas décadas seguintes.

   Quinze anos depois, aquele placar ainda aparece como dado recorrente, embora insuficiente para dar conta do que se seguiu. A eleição ocorreu num momento em que o mundo começava a reorganizar suas respostas à crise dos preços dos alimentos de 2007 e 2008. Arroz, trigo e milho haviam oscilado em níveis que expuseram fragilidades estruturais dos sistemas alimentares. Em vários países, a inflação dos alimentos coincidiu com instabilidade social. A fome, até então frequentemente tratada como problema residual do desenvolvimento, voltou ao centro das preocupações internacionais.

   Foi nesse contexto que a candidatura brasileira ganhou forma.

   Graziano chegava à disputa com uma trajetória marcada pela experiência no Programa Fome Zero, iniciado no Brasil em 2003. O programa não se apoiava em uma única política, mas na articulação de diferentes instrumentos de Estado. Transferência de renda, apoio à agricultura familiar, alimentação escolar, compras públicas e inclusão produtiva passaram a operar sob uma mesma lógica. A fome deixava de ser tratada como resultado automático da escassez de alimentos e passava a ser entendida como fenômeno ligado ao acesso, à renda e à organização social da produção.

   Essa leitura encontrou ressonância fora do Brasil em um momento em que o debate internacional buscava novas respostas para a insegurança alimentar. O aumento da produção agrícola, por si só, já não parecia suficiente para explicar ou resolver o problema. A experiência brasileira passou a circular como referência em fóruns multilaterais, centros de pesquisa e governos de países em desenvolvimento.

   A candidatura à FAO foi construída a partir desse repertório.

   O Brasil apresentou Graziano não apenas como gestor ou acadêmico, mas como alguém associado a uma experiência concreta de política pública. A proposta defendia uma reorganização das prioridades da FAO. Sem abandonar o papel histórico de apoiar a agricultura, a organização deveria tratar a segurança alimentar como eixo central de sua atuação. Isso implicava deslocar o foco de uma visão predominantemente produtivista para uma abordagem mais ampla, que integrasse proteção social, desenvolvimento rural e acesso à alimentação.

   A disputa se desenrolou em paralelo a esse reposicionamento do debate global. A FAO, naquele momento, ainda carregava a marca de longos ciclos de liderança e de uma estrutura institucional em transição. O então diretor-geral, Jacques Diouf, encerrava quase duas décadas à frente da organização. Reformas recentes haviam reduzido a duração dos mandatos futuros, o que aumentava o peso das escolhas imediatas e tornava a eleição de 2011 particularmente sensível.

   O processo que levou à votação em Roma foi marcado por uma articulação diplomática extensa. A candidatura brasileira mobilizou o Itamaraty, embaixadas e missões permanentes em diferentes continentes. Parte decisiva das negociações ocorreu longe da sede da FAO, em capitais africanas, latino-americanas, asiáticas e europeias. Países sem representação permanente em Roma também foram alvo de uma campanha específica, conduzida em nível bilateral.

   A construção de apoio envolveu ainda blocos regionais e articulações multilaterais. No espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o respaldo inicial de Portugal teve impacto relevante ao sinalizar que não haveria unidade automática em torno de uma candidatura europeia. No âmbito do G77, a campanha encontrou um terreno já sensível às discussões sobre segurança alimentar e desenvolvimento. O apoio de países da África, América Latina e Caribe consolidou uma base que, embora heterogênea, se mostrou suficiente para sustentar a vitória apertada.

   Em seu discurso após o resultado, Graziano fez referência explícita a esse conjunto de apoios, numa votação que expôs tanto a fragmentação do sistema quanto a capacidade de articulação construída ao longo da campanha.

   Ao assumir a direção da FAO em janeiro de 2012, ele encontrou uma organização diante de pressões simultâneas. De um lado, a necessidade de responder às consequências da crise alimentar recente. De outro, a exigência de se reposicionar em um cenário em que segurança alimentar deixava de ser apenas questão agrícola e passava a se conectar a temas como desigualdade, mudanças climáticas e estabilidade política.

   Ao longo de seus dois mandatos, entre 2012 e 2019, a FAO incorporou gradualmente essa mudança de perspectiva. A agricultura familiar ganhou centralidade nas estratégias institucionais, não apenas como categoria produtiva, mas como elemento estruturante dos sistemas alimentares em diversos países. A cooperação Sul-Sul passou a ocupar lugar mais destacado, incentivando a circulação de experiências entre países que enfrentavam desafios semelhantes.

   Ao mesmo tempo, a organização ampliou sua presença junto a governos nacionais, estimulando políticas de inclusão produtiva, fortalecimento de cadeias locais de abastecimento e programas de alimentação escolar. Questões como igualdade de gênero no meio rural, direito humano à alimentação adequada e participação social passaram a integrar com mais frequência os documentos e programas da instituição.

   Nos últimos anos de sua gestão, outro eixo ganhou consistência. A FAO passou a associar de forma mais direta a insegurança alimentar a conflitos armados, deslocamentos populacionais e eventos climáticos extremos. A produção agrícola deixou de ser tratada apenas como variável econômica e passou a ser compreendida também como componente de estabilidade social. Proteger sistemas alimentares passou a significar, em muitos casos, reduzir vulnerabilidades associadas a crises humanitárias.

   Quinze anos depois, esse diagnóstico encontra um cenário mais amplo e mais severo. Conflitos prolongados, instabilidades econômicas e eventos climáticos extremos voltaram a pressionar o número de pessoas em situação de insegurança alimentar em diferentes regiões do mundo. Ao mesmo tempo, o horizonte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que prevê a erradicação da fome até 2030, se aproxima sem que essa meta esteja próxima de ser alcançada.

   Nesse ambiente, a eleição de 2011 retorna ao debate não como episódio isolado, mas como ponto de inflexão. A disputa apertada em Roma marcou a entrada de uma agenda mais abrangente na FAO, na qual segurança alimentar deixou de ser tratada como subproduto do crescimento agrícola e passou a integrar um conjunto mais complexo de políticas públicas.

   À medida que a organização se aproxima de uma nova sucessão em 2027, o problema reaparece sob outra forma. O desafio não está apenas em produzir alimentos em quantidade suficiente, mas em garantir que eles cheguem a quem deles depende. A questão, hoje, permanece em aberto, ainda que formulada em termos que começaram a ganhar nitidez naquele dia de junho de 2011.

publicação original:

https://red.org.br/noticias/quinze-anos-depois-legado-da-eleicao-de-graziano-volta-ao-centro-do-debate-sobre-a-fome-por-edward-magro/

Este texto exprime a visão do(a) autor(a) e não representa a opinião da Abed

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