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A reinvenção da identidade nacional

6 de julho de 2026

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imagem: A Terra é Redonda

texto: Marcio Pochmann

   A reinvenção do Brasil no século XXI demanda uma nova narrativa identitária que supere o consumo e a fragmentação digital em prol de um projeto coletivo de nação

   Toda grande transformação econômica altera também a forma como um povo se reconhece. As identidades coletivas não surgem no vazio, nem dependem apenas de símbolos, bandeiras ou discursos. Elas resultam do modo como a sociedade trabalha, produz, distribui riqueza e organiza a vida coletiva.

   Neste primeiro terço do século XXI, o Brasil atravessa uma profunda mudança de época. A antiga sociedade urbana e industrial vem cedendo lugar a uma nova sociedade de serviços, hiperconectada, digitalizada e cada vez mais fragmentada. Nesse cenário, a pergunta central deixa de ser apenas como voltar e sustentar o crescimento. Passa a ser também sobre qual identidade nacional pode sustentar um novo projeto de país?

   Essa não é a primeira vez que o Brasil enfrenta uma transformação dessa magnitude. A própria história nacional pode ser lida como a sucessão de três formas de capitalismo, três modos de inserção na economia mundial e três grandes identidades coletivas.

A nação inacabada e o capitalismo agrário-exportador da República Velha

   Durante a República Velha (1889-1930), o Brasil estava profundamente integrado à ordem econômica liderada pela Inglaterra. O país ocupava uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho, exportando produtos primários e importando bens manufaturados modernos.

   O café, a borracha, o açúcar e outros produtos agrícolas financiavam a acumulação das oligarquias, enquanto as mercadorias industriais britânicas abasteciam o mercado interno. A dependência econômica produzia também fragilidade política e identitária.

   O Brasil era um vasto território ainda pouco integrado, sem uma comunidade nacional plenamente constituída. O povo estava praticamente ausente do sistema político. O ex-escravizado, o trabalhador rural, o imigrante e as massas urbanas emergentes não eram reconhecidos como sujeitos da nação.

   A identidade coletiva era fragmentada, regional e oligárquica. Não existia um “nós” nacional. Ele era bloqueado pelo domínio de interesses regionais, vínculos locais, relações familiares e práticas patrimonialistas.

A invenção do trabalhador brasileiro pelo projeto nacional-desenvolvimentista

   A Revolução de 1930 inaugurou uma nova fase histórica, marcada pela modernização, ainda que conservadora, do capitalismo brasileiro. A crise da ordem liberal, aberta desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), conviveu com a ascensão dos Estados Unidos à condição de principal potência econômica mundial. Esse novo contexto abriu outra possibilidade histórica para o Brasil.

   Entre as décadas de 1930 e 1980, o país construiu uma das experiências mais bem-sucedidas de industrialização tardia do mundo. Sob a liderança estadunidense no segundo pós-guerra, o Brasil estruturou o Estado moderno e implementou a política de substituição de importações. Com isso, reduziu sua dependência de bens manufaturados externos e formou uma estrutura produtiva mais complexa.

   A entrada de empresas estadunidenses e europeias não significou apenas desnacionalização da economia. Ela também permitiu a montagem de um sistema industrial integrado, envolvendo siderurgia, petróleo, química, máquinas, bens de capital, automóveis, infraestrutura e serviços modernos.

   O Brasil urbano e industrial produziu, assim, uma nova identidade nacional, assentada numa narrativa poderosa de pertencimento. O trabalhador industrial, o servidor público, o professor, o técnico, o operário e o pequeno agricultor passaram a ser reconhecidos como parte de um projeto de país orientado pela industrialização, pela urbanização e pela modernização nacional.

   Ainda que incompleta e desigual, havia uma ideia compartilhada de futuro. Com Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954), a industrialização era compreendida como a invenção de um novo povo. Daí sua afirmação histórica: “Hoje os trabalhadores estão comigo no poder; amanhã serão o próprio poder”.

   Pela primeira vez, o trabalhador tornou-se sujeito político e símbolo da modernização nacional. Juscelino Kubitschek (1956-1961) transformou os candangos de Brasília em heróis de uma epopeia desenvolvimentista. João Goulart (1961-1964), por sua vez, acrescentou a defesa das reformas de base como obra do povo organizado, indicando que o trabalhador deixaria de ser apenas mão de obra para ser reconhecido como construtor do futuro.

   Mesmo durante a ditadura dos governos militares (1964-1985), apesar do autoritarismo, a ideia de uma missão nacional foi mantida. Os discursos do “Brasil Grande” e da “potência emergente” reforçavam a perspectiva de um destino comum, associando a identidade nacional ao desenvolvimento do país.

   Em síntese, por quase seis décadas, o brasileiro foi estimulado a se reconhecer pelo que produzia e pelo papel que exercia na construção das transformações nacionais. Havia um destino coletivo. Havia um projeto de país. Havia um “nós”.

   Essa fase histórica, contudo, começou a ruir na década de 1980, com o ajuste dos Estados Unidos à globalização neoliberal e suas repercussões no Brasil (crise da dívida externa, inflação elevada e o impasse político nacional). Nesse contexto, ganhou força a mobilização pela redemocratização e emergiu o ciclo político da Nova República, originalmente assentado na esperança de mudança e na retomada das reformas interrompidas em 1964.

A ruptura neoliberal e o retorno à especialização primário-exportadora

   A transição conduzida pelo alto após 1985 acabou impossibilitando o reformismo nacional-desenvolvimentista. Com a vitória eleitoral de Fernando Collor de Mello (1990-1992) houve a consagração de uma nova maioria política nacional orientada pelo receituário neoliberal.

   A partir de 1990, a abertura comercial e financeira, as privatizações e a desregulamentação econômica alteraram profundamente a estrutura do capitalismo brasileiro. A desindustrialização precoce enfraqueceu o sistema produtivo construído ao longo do século XX. O Brasil voltou a reforçar uma especialização baseada na exportação de produtos primários e recursos naturais, agora em um contexto geopolítico inteiramente distinto.

   Se a Inglaterra havia sido a potência hegemônica da República Velha e os Estados Unidos o principal parceiro do ciclo nacional-desenvolvimentista, a ascensão da China deslocou o eixo dinâmico da economia mundial. Ao mesmo tempo, a China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil.

   Essa nova relação econômica apresenta semelhanças com o passado, mas também diferenças profundas. De um lado, o Brasil volta a assumir a posição de grande exportador de commodities agrícolas e minerais. De outro, a China não exporta apenas bens manufaturados. Exporta também tecnologia, plataformas digitais, equipamentos de alta complexidade e serviços associados à economia digital, reforçando uma divisão internacional do trabalho cada vez mais assimétrica.

   A reprimarização da pauta exportadora brasileira coincidiu com o ingresso na era da inteligência artificial, digitalização e economia do conhecimento pelo centro dinâmico do capitalismo mundial. Essas transformações econômicas produziram também uma profunda mutação social, uma vez que a sociedade urbana e industrial cedeu lugar a nova de serviços hiperconectada.

   As antigas identidades coletivas do mundo do trabalho enfraqueceram, com o operário industrial, o sindicalismo de massa e as grandes organizações coletivas perdendo centralidade. Em seu lugar, surgem trabalhadores fragmentados, empreendedores de sobrevivência, prestadores de serviço, trabalhadores de plataformas e indivíduos permanentemente conectados.

   A política tentou responder a essa transformação, em primeiro lugar, pela figura do consumidor. Cada governo democrático apostou, à sua maneira, apontou para a integração social pelo mercado. O acesso ao crédito e ao consumo tornou-se instrumento importante de inclusão. Mas consumir não é pertencer. O consumo pode melhorar as condições de vida, mas não oferece, por si só, uma narrativa de reconhecimento coletivo. Quando a crise econômica avança, a identidade do consumidor revela sua fragilidade.

   E foi nesse vazio que a extrema direita cresceu. Ela compreendeu que as pessoas desejam algo mais profundo como o pertencimento, reconhecimento e sentido de comunidade. Por isso, passou a oferecer uma nova identidade baseada no patriotismo, religião e oposição a inimigos internos pelo ressentimento e ódio, transformando a nação, então, em campo permanente de guerra cultural.

   Por isso, o desafio histórico do século XXI não seria apenas econômico, também civilizatório. Como se viu, em cada fase do capitalismo, o país produziu uma identidade coletiva. Na sociedade agrária, prevaleceu a nação inacabada, enquanto na urbano-industrial, afirmou-se a identidade do trabalhador e do desenvolvimentismo e na atualidade da sociedade de serviços hiperconectada, o consumidor passou a disputar espaço com o patriota digital.

   Nenhuma dessas identidades hoje vigentes parecem capazes de responder sozinha aos desafios do primeiro terço do século XXI. O Brasil necessita de uma outra narrativa nacional, adequada à era digital, à transição ecológica e à economia do conhecimento e que seja capaz de reconhecer o brasileiro para além do que consome ou da comunidade virtual à qual pertence. Uma narrativa que o reconheça pelo que produz, cria, pesquisa, cuida, inova e constrói coletivamente.

   Nesse sentido, a reconstrução de um projeto nacional de desenvolvimento depende, antes de tudo, da reconstrução de um novo “nós” brasileiro. Sem isso, o país poderá permanecer preso a uma condição paradoxal por ser uma das maiores economias do mundo e incapaz de produzir um sentimento comum para o destino nacional numa época de profundas transformações geoeconômicas e tecnológicas.

 

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